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A esmagadora diferença da realidade de Ted Bundy: A face Irresistível do Mal e de Olhos Que condenam

Por - 27 julho


Theodore Robert Cowell poderia ter sido reconhecido pela sua inteligência e pela sua competência caso houvesse optado ser advogado, no entanto. seu nome se tornou notório devido a uma série de assassinatos brutais ocorridos entre 1974 e 1978, sabe-se que pelo menos 30 mulheres foram vítimas do serial killer. Ted Bundy: A Face Irresistível do Mal, no título original Extremely Wicked, Shockingly Evil and Vil, tenta nos mostrar o impacto das ações monstruosas de Ted na vida daqueles que o cercavam, principalmente sua ex namorada Liz Koepfer, responsável por entregar seu nome para a polícia. 


A direção do filme é de Joe Berlinger que possui em seu currículo 25 anos de experiência em True Crime e que recentemente também dirigiu Conversando com um serial killer: Ted Bundy. Nesse longa diferentemente da série documental, temos o enfoque na visão de Liz, haja visto que se baseia em um livro escrito por ela denominado The Phantom Prince: My Life with Ted Bundy. Se por um lado temos inovação - e eu particularmente adoro quando há subvertida - na escolha em não mostrar a brutalidade dos assassinatos e ter pouco enfoque na violência, algo que se espera quando há uma produção sobre um serial killer que de fato existiu. Por outro lado, temos certo apagamento das vítimas, sabemos pouco sobre elas e durante a obra inteira a direção e roteiro escolhem nos direcionar para a dúvida se Ted realmente é culpado de tais crimes. Isso em parte deve-se a própria história real, levando em consideração que Bundy se tornou um nome conhecido não só pela quantidade de vítimas, mas também por arrastar uma legião de admiradoras e isso deve nos levar a refletir o quanto homens brancos e educados chocam as pessoas em se mostrar capazes de tais feitos. Realmente, Ted era bastante manipulador e inteligente, não tem como negar, mas também há um reflexo da forma como nossa sociedade se estrutura e da forma como estamos acostumados a enxergar homens brancos e homens negros e digo isso já fazendo um paralelo com outro caso da vida real que recentemente também ganhou uma minissérie: When They See Us (em português, Olhos que Condenam) da maravilhosa Ava DuVernay. 


Em uma realidade um homem brando capaz de assassinar cruelmente, estuprar e mutilar o corpo de pelo menos 30 mulheres, entre uma delas uma menina de 12 anos, teve durante seu julgamento o mérito da dúvida, algo que A Face Irresistível do Mal, inclusive tenta reproduzir, mas que ao meu ver não deveria ter sido a escolha para abordar o caso. uma vez que já sabemos há um bom tempo que Ted Bundy era culpado pelos crimes. Já em outra realidade, temos cinco garotos condenados por estuprar uma mulher em 1989. Korey Wise, Antron McCray, Yuseff Salaam, Raymond Santana e Kevin Richardson, em nenhum momento, tiveram o mérito da dúvida, a polícia não pensou duas vezes em assumir que os cinco eram culpados, mesmo sem haver nenhuma prova e coagindo eles através de jogos mentais e violência a admitir um crime que não cometeram. Essas duas realidades gritantes tem muito a dizer sobre a forma como enxergamos homens brancos e homens negros, na nossa própria pressa em questionar a autoria dos crimes do homem branco, somente porque um homem “charmoso”, inteligente e educado não poderia ter cometido tais atos. Enquanto, temos pressa em arruinar a vida literalmente de adolescentes e crianças negras ao apontar todos os dedos e assumir assim como aqueles policiais que são culpados. Não é uma realidade tão distante como gostamos de pensar, quando por 80 tiros um homem negro foi assassinado por “engano”, isso é exatamente como funciona a nossa sociedade e como nós contribuímos com ela, é pelo simples fato de assumir logo de primeira que pessoas negras são criminosas, são suspeitas. É também pelo simples fato de que uma criança negra já é adulta para responder pelos seus atos e um homem branco é visto como apenas como um garoto que não tem responsabilidade ainda pelos seus atos. É uma diferença esmagadora que a minissérie da Ava aponta, que a própria realidade sempre mostra, mas que muitos tentam não enxergar. 

E em parte, sim, me incomodou o quanto Ted Bundy: A Face Irresistível do Mal tenta nos liderar para essa direção de questionar se Bundy era ou não culpado, entendo que devido a alta manipulação do serial killer e de o mesmo insistentemente se alegar inocente tem uma pitada de participação nisso, no entanto, considero ainda mais visível o quanto nos deixamos levar pelo nosso próprio preconceito; porque tenho certeza que não faltariam dedos para acusar e já assumir a culpa caso o corpo que estivesse sentado naquele tribunal fosse negro. 


Há mais problemáticas, uma delas é a relação de Ted com Liz, mais especificamente a forma com que a direção e o roteiro optaram trabalhar essa relação. Nos é passada a impressão de que Bundy se sente abandonado por ela quando para de ir aos tribunais, quando não atende mais seus telefonemas ou responde a suas cartas, quase como se um psicopata pudesse literalmente amar, como se ele acreditasse de verdade a amar. Sendo que toda a relação dele com ela era manipulatória, se analisarmos o próximo relacionamento dele podemos claramente ver quais eram as intenções de Ted, quando casou com Caroline Ann, em meio ao julgamento, era mais uma show para ele do que de fato estar comprometido e apaixonado por ela. E podemos perceber também o quanto ele estava interessado em dar todas as respostas para que ela pudesse falar com a imprensa. Isso não mostra um cara capaz de amar, mas sim um cara que gostava de brincar com a vida das mulheres a sua volta. Inclusive, com Liz que ficou consumida pela dúvida e pela culpa de ter entregue o nome dele para a polícia, tamanha a manipulação de Bundy. Apesar do longa não mostrar, mas na realidade, Liz enquanto esteve com Ted duvidava da sua fidelidade e encontrou entre as coisas dele um machado em seu carro, entre outras coisas que a levaram a dar informações para a polícia e cooperar com o caso.

O longa é extremamente interessante, levanta questões pertinentes, tem uma narrativa instigante, não é maçante. Além de ótimas atuações e uma incrível reprodução da realidade, Zac Efron entrega um Ted realmente convincente, com todas as particularidades, no jeito de falar, de se expressar, de se portar, ao fazer um comparativo com as gravações originais, nos damos conta do real empenho do ator em se fazer Theodore e isso é incrivelmente importante em uma narrativa embasada na vida real. Lilly Collins também merece destaque pela sua incrível atuação, transparecendo toda a humanidade de sua personagem. 

Enfim, a direção de Joe Berlinger precisava apenas de um pouco mais de olhar crítico sobre todo o ocorrido, precisava principalmente dar voz às tantas mulheres vítimas da crueldade de Bundy, que muitas nem sequer ouvimos falar no longa. 

“The crimes were extremely wicked, shockingly evil, vile and the product of design to inflict a high degree of pain” (Tradução: Os crimes foram extremamente perversos, chocantemente malignos, vil e construídos para infligir um elevado grau de dor)
Tagarelem conosco: vocês também são fãs de True Crime? Pretendem assistir o filme?
Até a próxima tagarelice e lembrem-se há serial killers ao nosso redor!

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