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Crítica | Us (Nós) reflete, através do terror, nossa própria desigualdade

Por - 21 março


Desde que saiu a notícia de um novo filme do Jordan Peele, a expectativa e a animação resolveram dar as caras. Isso porque o longa de estreia do diretor foi uma obra esplendorosa. Então, quando o belíssimo pôster foi anunciado, o hype já tinha ido lá em cima, só nos restava, então, esperar ansiosamente o dia de assistir. E ele chegou. 

Sinopse:

Adelaide (Lupita Nyong'o) e Gabe (Winston Duke) decidem levar a família para passar um fim de semana na praia e descansar em uma casa de veraneio. Eles viajam com os filhos e começam a aproveitar o ensolarado local, mas a chegada de um grupo misterioso muda tudo e a família se torna refém de seus próprios duplos.

Peele foi questionado sobre o gênero de Us, em português, literalmente Nós, sua resposta foi que era um filme de terror e de fato é. A trama possui elementos que geram tensão, que nos deixa no suspense, mas acima de tudo aborda a violência, o medo, o terror. Não é a toa que ao terminar de assistir, tudo o que nos resta é digerir e que digestão complicada e difícil, não pela obra ser ruim, pelo contrário, por ela ser incrivelmente boa que mexe com nosso psicológico.


Se você é uma pessoa que teme ver seu reflexo no espelho, se prepare, pois o longa foi feito especialmente para te pertubar. Não é nem pesadelos ou dificuldade para dormir que você terá ao descer dos créditos, como acontece com muitas obras do gênero, você vai mesmo é não conseguir se enxergar no espelho. 

Todas as metáforas do filme nos direcionam, pelo menos para aquela que vós escreve, a refletir sobre o quanto Us quer nos alertar da nossa própria violência escondida bem no fundo da nossa psiquê. O ser humano é um ser violento, é um ser inserido numa sociedade que instiga a violência, que instiga a desigualdade. Afinal, quando olhamos para o reflexo da sociedade enxergamos a nós mesmos. Nós somos o reflexo da desigualdade. E isso é retratado de uma forma tão sutil, ao menos tempo que direta, Peele tem o dom de se expressar por meio da sétima arte, foi assim com Get Out e não foi diferente com Us. Jordan mostra sua leitura sobre a sociedade, sobre seu país (Os EUA) e principalmente sobre o estudo da nossa mente. Quem somos nós? Somos seres cruéis? Temos mesmo a maldade dentro de nós?


A própria direção dele nos leva para essas questões, a completude das nossas facetas, o bem e o mal, a selvageria e civilidade. Como se as cópias, os nossos reflexos, caminhassem junto conosco. Afinal, em uma cena na praia é justamente a direção de Jordan que ressalta isso, ao escolher um enquadramento que evidencie as sombras, fazendo parecer que são elas que geram os movimentos. E até mesmo a sugestão de que se as cópias existem é para controlar o movimento daqueles que habitam a superfície. O que nos sugere uma crítica àqueles que detém o poder e o seu desejo em controlar as massas. 

A direção é recheada de cuidados e detalhes, bem pensada com a proposta da trama, Peele conseguiu construir uma realidade em que conseguimos nos ver inseridos. A escolha por paletas mais escuras e tons fortes ao cair da noite foi acertada, sentimos a mudança do clima e certamente adentramos em um ambiente mais hostil, mais aterrorizador até nos chocarmos com a ideia de enxergar a maldade através de nós mesmos.



Além de ser um estudo sobre a psiquê humana de uma forma geral, Us é sobretudo um estudo sobre a sociedade e o quanto ela naturaliza ambientes de violência, banalizando-os. Tanto é que vemos os personagens recorrerem ao humor para lidar com aquela realidade e o quanto eles passam a se sentir parte dela. É tudo bem rápido, como que se rompendo o lacre uma vez, torna-se difícil escapar dele. Como um vício. Tomados pelo sangue espalhado na roupa, a agressividade no olhar e pela euforia da sobrevivência. Afinal, ela é uma luta. Eles descobrem a si mesmos, como pessoas que não imaginariam ser. E tudo isso pensando na vida em sociedade, para além do que diz questão ao pessoal. 

A comicidade como citada anteriormente é muito bem encaixada, afinal quem disse mesmo que terror e humor não combinam? É a mescla desses dois que torna tudo ainda mais bizarro e psicologicamente torturador.



O filme é tudo aquilo que eu não esperava que fosse e isso é algo totalmente incrível, veio carregado em originalidade e em algo que amo: a remoção. Isso mesmo um novo ar para um gênero que tanto apreciamos, mas que queremos que não caiam na mesmice. E temos que agradecer, dentre outros, Peele por isso.

Quero destacar aqui a incrível atuação de duas mulheres incríveis, Lupita Nyongo e Elizabeth Moss, não é nenhuma novidade o talento de ambas, mas foi ainda mais incrível perceber o quanto a expressividade delas acrescentaram muito a trama, se conseguimos sentir a tensão e o medo palpável é graças a versatilidade dessas duas grandes atrizes. Pode entrar Oscar 2020!


Us veio para passar uma mensagem super importante: a importância de diretores negros (E DIRETORAS!, não vamos esquecer). O protagonismo negro sendo feito para além de abordar apenas questões raciais, mas para ocupar papeis de destaque principalmente em um gênero que tem histórico de esteriotipar muito. Em Nós temos negros que estão ali para além de morrer primeiro. Para serem protagonista das histórias que querem contar, das visões do mundo que possuem e tomara que isso se torne cada vez mais comum porque Us é sem sombras de dúvida o melhor filme de terror até agora, atingindo a um enorme público, conseguindo ser um filme de terror versátil, mesclando o terror psicológico com o físico, o horror com o humor, a realidade com a ficção e nos mostrando o que existe bem no fundo da nossa mente. É bem aterrorizante. 

Sendo assim, o longa recebe:

(5 de 5 pinguinzinhos)

Nós (Us) estreia 21 de Janeiro, hoje nos cinemas brasileiros.

Tagarelem conosco: Estão com o hype lá em cima? Vão ir encontrar a si mesmos nos cinemas? 
Até a próxima tagarelice e lembrem-se que o nosso pior inimigo é sempre nós mesmo!

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