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Ilha dos Cachorros | A humanização dos caninos representa a nossa desumanização

Por - 26 julho


Wes Anderson, o tão conhecido diretor que possui certa obsessão por enquadramentos centrados e perfeito alinhamento dos elementos em cena, não poderia não deixar sua marca em seu novo filme, Ilha dos cachorros. Contando com um visual espetacular, de cores vibrantes que ressaltam os cenários, o filme todo feito em stop motion demonstra uma qualidade não só em seu design, mas também, e principalmente, em seu roteiro recheado de metáforas e paralelos com a realidade.

Sinopse:

Atari Kobayshi é um garoto japonês de 12 anos de idade. Ele mora na cidade de Megasaki, sob a tutela do prefeito corrupto Kobayashi. O político aprova uma nova lei que proibe os cachorros de morarem no local, fazendo com que todos os animais sejam enviados a uma ilha vizinha repleta de lixo. Mas, o pequeno Atari não aceita se separar do cachorro Spots, ele convoca os amigos, rouba um jato em miniatura e parte em busca do seu fiel amigo. A aventura épica vai transformar completamente a vida da cidade.
O roteiro tem a assinatura do diretor juntamente com Roman Coppola e mescla muito bem o humor excêntrico e o drama. A brincadeira entre fábula - animais que apresentam características antropomórficas, utilizando analogias entre o cotidiano humano e as histórias vividas pelas personagens para no final presentear com uma moral - e a realidade, uma vez que pincela diversos assuntos da sociedade, do comportamento humano e da organização dos governos.

O abandono, a ingratidão, o ódio são sentimentos presentes na obra, em contraste há o amor, a lealdade e principalmente a amizade. Estes sentimentos são pontuados e muitas vezes somos conduzidos a refletir a respeito deles, pois se repete a mesma história durante anos e anos na nossa sociedade. O quando o desejo de se sentir superior faz com que nós subjugamos o diferente, o outro, que é desconhecido para nós. Seus problemas viram meros detalhes, problemas do outro. Seja esse outro qualquer espécie viva.



O pior é a falácia de que os fins justificam os meios e que as atrocidades tomadas são para o bem estar comum. É tudo simplesmente fachada para exercer a crueldade a torto e a direito. Desumanizamos, tornamos bestializados, nos distanciamos do que significa ser animal simplesmente para reforçar uma superioridade sobre o outro, para defender algo que nos convém. A espécie humana é cheia de sujeira, é só recorrermos a história, tivemos guerras, holocaustos, racismo, misoginia, perseguição a imigrantes, segregação, ditaduras e a lista não para. Mas, o maior detalhe é que não ficou para trás, não é história passada, é história presente. Está todo dia acontecendo. Essa analogia poderosa é feita ao longo do filme em que abandonar os cachorros em uma ilha de lixo e a desenvolver perseguição é a nossa própria realidade imprimida em cena.

Não para por ai, a humanização dos cachorros serve também para nos aproximar dessas espécies que fazem parte do nosso mesmo reino, o animal. Somos todos animais. Precisamos internalizar isso para que a crueldade animal também diminuía e que principalmente, pare de acontecer.



Toda essa aproximação com a realidade se apresenta através de detalhes, que inclusive tiveram o cuidado de inserir em Ilha dos Cachorros, a ambientação traz a arquitetura japonesa, incorporada de elementos culturais; na ilha, sempre há um rato correndo ao fundo, as pulgas ou carrapatos saltando nos caninos, tudo isso para demonstrar uma situação precária em que vivem os bichos, além é claro das lutas por sobrevivência - que nos leva a refletir o quanto um ambiente hostil desenvolve comportamentos de violência. Os sons se aproximam bastante da audição canina e a câmera muitas vezes toma a ótica deles, nos colocando em suas posições, compreendendo o jeito que vivem, pois muitas vezes quando a câmera centraliza eles e os mesmos estão virados em nossa direção é como se falassem diretamente conosco, em outras vezes o enquadramento sugere que estamos naquele meio, com aquele grupo.

Outro elemento utilizado com a sutileza dos detalhes para nos aproximar dos cachorros é a escolha do diretor em fazer com que todas personagens humanas falassem japonês, enquanto os cachorros falassem em inglês, sendo necessário, muitas vezes intérpretes para a tradução. Isso nos permite nos conectar ainda mais com aqueles animais, uma vez que gera impessoalidade, uma sensação de compreensão. A profundidade psicológica dos caninos é bem explorada, os detalhes dos olhos lacrimejantes quando se emocionam nos eleva a empatizar e compreender a dor deles.





Por último, Ilha dos Cachorros aborda o totalitarismo e a corrupção, muito mais do que apontar apenas um vilão, a animação nos mostra um sistema, que de fato a corrupção é, onde as figuras de poder podem ser peões dentro de um contexto maior. Ou podem ser o orquestrador também, mas nunca estão sozinhos. Então, não adianta nada prender um sujeito e esperar que a corrupção acabe, desculpe informar, o mesmo foi apenas um bode expiatório. Para acabar com a corrupção, é preciso acabar com o sistema.

Enfim, Ilha dos Cachorros é Wes Anderson em sua totalidade, com assinatura e carimbo. A animação aborda diversas temáticas e como uma fábula, dá mais de uma lição de moral, mas a mais importante, no entanto, é a de que é possível se relacionar e se identificar com o diferente, o outro, pois sempre há semelhanças. O longa possui história única e bem executada, fazendo uso de muitos recursos, sendo um deles a saturação das cores evidenciando a péssima mas  aparente positiva situação dos caninos e daquela sociedade.

Portanto, Ilha dos Cachorros recebe:

(4,5 de 5 pinguinzinhos)

Notas da Pinguim: A Greta Gerwig (Lady Bird) dublou Tracey Walker // O Wes Anderson homenageou bastante o cinema japonês e inclusive admitiu se inspirar em Hayao Miyazaki - com espaco para silencio e desconfortos - e Akira Kurosawa.
Tagarelem conosco: vocês gostam de stop motion? Já assistiram os filmes do Wes? Gostam de animações com reflexões profundas?
Longa estreia dia 26 de Julho nos cinemas brasileiros.

Até a próxima tagarelice e lembrem-se Ilha dos Cachorros é um filme bom pra cachorro (perdoem o trocadilho)

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1 Tagarelices

  1. Eu amo stop motion por causa dos filmes do Tim Burton e Coraline *-* não conhecia esse diretor e, não sei se é porque o filme é em stop motion, mas é impossível não pensar nos trabalhos do Burton.
    Fiquei muito curiosa para assistir, pois trata de temas muito importantes. Sua crítica está fantástica! :)

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